A fórmula mágica da paz

Formula Magica da Paz by Racionais MC's on Grooveshark
Essa porr* é um campo minado,  quantas vezes eu pensei em me jogar daqui, mas aí, minha área é tudo o que eu tenho, a minha vida é aqui e eu não preciso sair. É muito fácil fugir mas eu não vou, não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde eu tô e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim. (...) Então, como eu tava dizendo, sangue bom, isso não é sermão, ouve aí tenho o dom, eu sei como é que é, é foda parceiro, maldade na cabeça o dia inteiro. Nada de roupa, nada de carro, sem emprego, não tem ibope, não tem rolê, sem dinheiro. Sendo assim, sem chance, sem mulher, você sabe muito bem o que ela quer. Encontre uma de caráter se você puder, é embaçado ou não é? Ninguém é mais que ninguém, absolutamente, aqui quem fala é mais um sobrevivente. Eu era só um moleque, só pensava em dançar, cabelo black e tênis All Star. Na roda da função "mó zoeira" tomando vinho seco em volta da fogueira, a noite inteira, só contando história, sobre o crime, sobre as treta na escola. Eu não tava nem aí, nem levava nada a sério, admirava os ladrão e os malandro mais velho. Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga: O que melhorou? da função quem sobrou? sei lá, muito velório rolou de lá pra cá, qual a próxima mãe que vai chorar? Há, demorou mas hoje eu posso compreender, que malandragem de verdade é viver. Agradeço a Deus e aos Orixás, parei no meio do caminho e nem olhei pra trás meus outros manos todos foram longe demais. 
Mas que merda, meu oitão tá até a boca, que vida louca! por que é que tem que ser assim? Ontem eu sonhei que um fulano aproximou de mim,"agora eu quero ver ladrão, pá! pá! pá! pá!", Fim. É... sonho é sonho, deixa quieto (...) Eu não preciso de muito pra sentir-me capaz de encontrar a Fórmula Mágica da Paz. Eu vou procurar, sei que vou encontrar, eu vou procurar, você não bota fé, mas eu vou atrás da minha fórmula mágica da paz. Caral*o, que calor, que horas são agora? Dá pra ouvir a pivetada gritando lá fora. Hoje, acordei cedo pra ver, sentir a brisa de manhã e o sol nascer, é época de pipa, o céu tá cheio, 15 anos atrás eu tava ali no meio. Lembrei de quando era pequeno, eu e os cara... faz tempo, faz tempo, e o tempo não para. Uma pá de mano preso chora a solidão, uma pá de mano solto sem disposição empenhorando por aí. Rádio, tênis, calça, acende num cachimbo... virou fumaça! Não é por nada não, mas aí, nem me ligo, a minha liberdade eu curto bem melhor, eu não tô nem aí pra o que os outros fala 4, 5, 6, preto num Opala, pode vir gambé, paga pau, tô na minha na moral na maior,sem goró, sem pacau, sem pó. Eu tô ligeiro, eu tenho a minha regra, não sou pedreiro, não fumo pedra. Um rolê com os aliados já me faz feliz, respeito mútuo é a chave é o que eu sempre quis. Choro e correria no saguão do hospital. Dia das criança, feriado e luto final. Sangue e agonia entra pelo corredor, ele tá vivo pelo amor de Deus doutor. Quatro tiros do pescoço pra cima, put* que pariu a chance é mínima. Aqui fora, revolta e dor, lá dentro estado desesperador. Eu percebi quem eu sou realmente, quando eu ouvi o meu sub-consciente: "e aí mano brown cuzão? cadê você? seu mano tá morrendo o que você vai fazer?". Pode crê, eu me senti inútil, eu me senti pequeno, mais um cuzão vingativo, p*ta desespero, não dá pra acreditar, que pesadelo, eu quero acordar. Não dá, não deu, não daria de jeito nenhum, o Derley era só mais um rapaz comum, dali a poucos minutos, mais uma Dona Maria de luto. Na parede o sinal da cruz, que porra é essa?Que mundo é esse? Onde tá Jesus? P*rra, eu tô confuso, preciso pensar, me dá um tempo pra eu raciocinar. Eu já não sei distinguir quem tá errado, sei lá, minha ideologia enfraqueceu: Preto, branco, polícia, ladrão ou eu? quem é mais filha da p*ta, eu não sei! Aí f*deu, f*deu, decepção essas hora... a depressão quer me pegar vou sair fora. Dois de novembro era finados, eu parei em frente ao São Luís do outro lado e durante uma meia hora olhei um por um e o que todas as senhoras tinham em comum: a roupa humilde, a pele escura, o rosto abatido pela vida dura, colocando flores sobre a sepultura. Podia ser a minha mãe, que loucura. A gente vive se matando irmão, por quê? Não me olhe assim, eu sou igual a você. Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho, que no trem da malandragem, o meu rap é o trilho. Não se acostume com esse cotidiano violento, que essa não é a sua vida, essa não é a minha vida morô mano? Aqui quem fala é Mano Brown mais um sobrevivente, agradeço á deus, agradeço á deus,  27 anos, contrariando a estatística.  Eu prefiro a Paz!